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Descobrimento do Brasil
Quando Vasco da gama regressou a Portugal, de sua viagem às Índias, veio carregado de riquezas.
O rei de Portugal, D. Manoel, o Venturoso, mandou preparar uma poderosa esquadra (a maior organizada até a época) e entregou o seu comando a Pedro Álvares Cabral.
Essa esquadra tinha a finalidade de instalar feitorias nas Índias e de estabelecer o comércio entre Portugal e Oriente.
A 9 de março de 1500, as caravelas partiram do Tejo comandadas por Pedro Álvares Cabral.
Na nau capitânia, com capacidade para 250 tonéis, seguiam, além de Pedro Álvares Cabral e sua guarda pessoal (formada, provavelmente, por um pelotão de sete besteiros*), cerca de 80 marinheiros e 70 soldados, aos quais somavam 33 outros passageiros, entre eles sete serviçais, dois degredados, oito frades franciscanos e oito intérpretes (com destaque para Gaspar da Gama, "o judeu da Índia", que vivera em Calicute por cerca de 30 anos e lá fora capturado por Vasco da Gama em 1498, e Gonçalo Madeira, "o mouro cristão de Tânger", aprisionado pelos portugueses em Marrocos por volta de 1478). Também a bordo da capitânia os oito futuros funcionários da feitoria de Calicute, liderados pelo fidalgo Aires Correia, feitor-nor do entreposto cuja fundação era o principal objetivo da viagem. Entre esses funcionários contava-se um certo Pero Vaz de Caminha, que deveria ser o futuro escrivão (ou contador) da feitoria. Ao todo, havia cerca de 190 homens a bordo do navio.
Alguns historiadores acreditavam que Cabral teria viajado na nau São Gabriel -- a mesma com a qual Vasco da Gama chagara a Índia, dois anos antes. A questão ainda não foi (e talvez jamais tenha a ser) esclarecida.
Na esquadra iam:
soldados
padres franciscanos chefiados por frei Henrique Soares de Coimbra;
o escrivão Pero Vaz de Caminha;
outros navegadores.
No dia 21 de abril, foram avistados os primeiros sinais de terra: aves voando (Fura-buchos, as aves da anunciação do Brasil, são gaivotas do gênero Puffinus anglorum, de plumagem negra no dorso e cabeça tingida de branco, muito comuns nos Açores e no litoral do Nordeste do Brasil) e ervas (Botelhos, que são algas da família das fucáceas. Seu nome científico é fucus vesiculosus porque, essas algas possuem "vesículos" cuja forma se assemelha a uma garrafa. A palavra botelho vaio do espanhol boteja, que significa justamente "garrafa") boiando nas ondas.
No dia 22 de abril, foi avistada terra: um monte, visto cerca de 70 quilômetros da costa, que foi denominado Monte Pascoal, porque estavam na Páscoa.
No dia 23 de abril, o capitão Nicolau Coelho encontrou-se pela primeira vez com os tupiniquins, índios daquela região, na manhã de 23 de abril.
No dia 26 de abril, era domingo de Pascoela (o primeiro após a Páscoa). Cabral mandou então que um altar "mui bem arranjado" fosse erguido da parte emersa do ilhéu da Coroa Vermelha, sob um esperável (espécie de tenda, ou dossel, de forma cênica). Ali, Frei D. Henrique cantou a missa, junto com os demais frades e capelães. Cabral levava consigo "a bandeira de Cristo, sob cuja obediência viemos, com a qual saíra de Belém, e que manteve sempre alta, durante o Evangelho".
Lembrando que mais tarde seria espalhada a idéia de que os habitantes daquela terra, "gentios do Brasil" não pronunciavam as letra f, l, r "porque não possuíam fé, lei ou rei".
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A sexta-feira, primeiro dia de maio e penúltimo da esquadra de Cabral no Brasil, foi reservada para o erguimento da cruz feita na manhã anterior. Toda a tripulação foi autorizada a deixar as naus e, "cantando em forma de procissão", com os estandartes da Ordem de Cristo bem erguidos à sua frente, mais de mil homens seguiram em fila pelas margens do Mutari, em direção ao local "onde nos parecera ser melhor fincar a cruz, para ser melhor vista". Cerca de 150 indígenas logo se juntaram à romaria-- e vários deles ajudaram os marinheiros a carregá-la. A cruz foi fincada no meio da baía, com as armas reais de D. Manoel pregadas a ela. Quando os portugueses se ajoelharam à sua sombra, os agora cerca de 80 nativos que estavam ali fizeram o mesmo.
O que parece certo é que foi graças ao fato de aquela cruz ter sido fincada na praia que o novo país acabou sendo batizado por Cabral como "ilha de Vera Cruz". Ao retornar a Portugal, um ano mais tarde e já com a certeza de que tinham visitado um novo continente, Cabral e seus capitães a chamariam de "Terra de Vera Cruz".Mas, tal designação não "pegou": os marujos recém-retornados preferiam chamá-la de "Terra dos Papagaios". Esse nome seria conhecido como Brasil-- não apenas por causa da árvore que possuía em abundância, mas também em função da antiga e lendária "ilha do Brasil".
No dia 2 de maio, sábado pela manhã, a armada preparou-se para partir: uma nau de mantimentos, em direção a Portugal iria partir. Nela seguiam todas as amostras que haviam sido recolhidas na nova terra. Entre arcos, flechas, cocares, bodoques e pedras de pouco valor, forma embarcadas também as primeiras toras de pau-brasil a chegar à Europa, além das duas araras que tanto espanto causaram na corte. Junto com eles um tupiniquim que mais tarde ficaria na próxima ilha, não chegando ao seu destino...
Essa nau sobre a Responsabilidade de Gaspar de Lemos levava também as carta que Cabral, todos os capitães, vários escrivões (entre os quais o escrivão oficial da armada, Gonçalo Gil Brabosa), os principais religiosos e os fidalgos mais nobres escreveram para o rei D. Manoel. Todas elas-- com exceção das cartas de Mestre João e a chamada Relação do Piloto Anônimo, além, é claro, da carta escrita por Pero Vaz de Caminha-- desapareceram no grande incêndio que se alastrou por Lisboa em 1580, ou então submergiram no ostracismo ao qual Cabral foi relegado após seu retorno a Índia. Se algum papel escapou dessas duas calamidades, o terrível terremoto de 1755 se encarregou de destruí-lo.
Além das carta "oficiais", o navio também levaria para Portugal dezenas, talvez centenas, de mensagens particulares, enviadas pelos soldados e pelos marujos a seus familiares.
O Verdadeiro Cabral?
Apesar de pouco conhecida, a imagem acima provavelmente é a mais fidedigna representação das feições de Cabral. Trata-se do busto esculpido na fachada do Mosteiro dos Jerônimos, por volta de 1520 (ano provável da morte de Cabral). Existem quatro bustos ou "medalhões" talhados nos pilares do Mosteiro. Três deles retratam os "heróis do Oriente": os irmãos Vasco da gama e Paulo da Gama, mais Nicolau Coelho. O medalhão restante representaria o "herói do Ocidente", Pedro Álvares Cabral. De fato, a efígie do medalhão acima é a única voltada para o Oeste. A tese de que o medalhão representa Cabral foi lançada por Varnhagem em 1842.
As Gentes de Armas
Embora supostamente sua missão fosse comercial e de paz, não há dúvidas de que em tropas, munições e artilharia a frota de Cabral levava a bordo o máximo e o melhor que àquele tempo era possível. Os soldados, no entanto, eram mal treinados. A maior parte deles não usava armaduras -- com razão consideradas impróprias para os trópicos --, mas cobria os corpos com malhas metálicas e capacetes.
O Bojo da Danação
O interior das naus e caravelas do século XVI era um lugar escuro, sujo e perigoso. Embora fossem autênticos quartéis flutuantes, os navios do descobrimento não se livravam da imundice caraterística das ruas e das cidades medievais da Europa. Nos porões, havia ratos e baratas em profusão, e muitos dos tripulantes faziam suas necessidades ali mesmo, mareados demais para subirem no convéns. As doenças-- especialmente o escorbuto-- eram freqüentes e altamente mortíferas.
O Escorbuto
De todas as calamidades físicas que as abatiam sobre os marujos dos séculos XVI e XVII, nenhuma era mais devastadora e repulsiva que o escorbuto. Doença provocada pela carência de vitamina C, o escorbuto provocava hemorragias e causa o rompimento das paredes de vasos sangüíneos. Os primeiros marinheiros ocidentais afetados por essa terrível enfermidade foram os homens da esquadra de Vasco da Gama, em 1497. A doença em geral se manifesta após 70 dias em alto-mar. De início, era chamada de "mal de Luanda", pois em geral atacava os marujos quando seus navios se encontravam ao largo da costa de Angola. O nome "ventre aberto" e deu origem ao francês scorbut. Há inúmeras e horrendas descrições dos estragos feitos pelo escorbuto entre os passageiros da chamada "Carreira da Índia". O efeito mais conhecido da doença é o inchaço das gengivas, que apodreciam, ficavam muitíssimo malcheirosas e tinham que ser cortadas a navalha. As vítimas do scorbuto em geral morriam após dois meses de grandes sofrimentos. No século XVIII, o capitão inglês James Cook concluiu que o consumo de limões e laranjas (ricos em vitamina C) evitava a doença.
No dia 24 de abril, a esquadra aportou na atual Baía de Cabrália, no Ilhéu da Coroa Vermelha.
Durante muito tempo, acreditou-se que o descobrimento do Brasil foi por acaso; que a esquadra afastou-se demais das costas africanas, chegando a uma nova terra.
Atualmente, não se acredita que o Brasil tenha sido descoberto por acaso. Há autores que afirmam que Portugal já tinha conhecimento da existência de terras no Ocidente, e que Cabral saiu mesmo com o fim de vir ao Brasil.
*"Besteiros": soldados armados de bestas. A besta era uma arma medieval, que disparava setas, formada por um cabo, um arco e uma corda.
Fabiano Rodrigues Marques 2002®.